O reconhecimento oficial da prática de dumping nas importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai, anunciado na última quinta-feira (28), reacendeu a mobilização do setor leiteiro brasileiro. Após quase três anos de investigação, o Governo Federal confirmou, por unanimidade, a existência de concorrência desleal contra os produtores nacionais. No entanto, a aplicação das medidas antidumping foi suspensa para análise de possíveis impactos inflacionários, decisão que provocou forte reação da cadeia produtiva e da deputada federal Ana Paula Leão (PP-MG), uma das principais vozes da pauta no Congresso Nacional, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) para a região Sudeste e presidente da Frente Parlamentar em Apoio ao Produtor de Leite (FPPL).
“Não estamos pedindo privilégio, e sim justiça. O governo reconheceu que há prejuízo ao produtor brasileiro. Reconheceu que há uma prática desleal acontecendo. Se tudo isso já foi comprovado, por que suspender a medida que protegeria quem produz? Não dá mais para esperar”, afirmou Ana Paula Leão.
A parlamentar acompanha o tema desde o início da investigação e tem atuado junto a produtores, cooperativas e entidades representativas na defesa de medidas que garantam condições justas de concorrência para o leite brasileiro. Após a decisão do Comitê Executivo da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex), Ana Paula intensificou a mobilização e fez um chamado público para ampliar a pressão sobre o Governo Federal. Em suas redes sociais, divulgou os canais oficiais do Ministério do Planejamento e Orçamento, pasta responsável pelo pedido de suspensão, para que produtores, lideranças e cidadãos manifestem sua posição sobre o tema.
Os números reforçam a preocupação do setor. A investigação conduzida pelo Departamento de Defesa Comercial (Decom), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), comprovou margens de dumping superiores a 60% nas exportações dos países vizinhos. O processo foi aberto após pedido apresentado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que apontou prejuízos crescentes aos produtores nacionais diante da entrada de produtos importados a preços artificialmente reduzidos.
Segundo dados da Leite Brasil, as importações totais de lácteos alcançaram 24.960 toneladas em abril deste ano, crescimento de 28,1% em relação ao mesmo período de 2025, quando o volume registrado foi de 19.482 toneladas. No mesmo comparativo, as importações de queijos aumentaram 50%, enquanto o leite em pó registrou alta de 31%. No acumulado de janeiro a abril, o volume importado chegou a 94.947 toneladas, avanço de 5% sobre o mesmo período do ano passado.
Para o setor, o avanço das importações em condições consideradas desleais pressiona os preços pagos ao produtor, reduz a rentabilidade da atividade e ameaça a permanência de milhares de famílias no campo.
“Somos um dos maiores produtores mundiais, produzimos cerca de 35 bilhões de litros por ano e movimentamos mais de R$ 72 bilhões na economia. O que está faltando é proteção para quem produz, mesmo diante das dificuldades, e continua sustentando milhares de municípios brasileiros”, destacou a deputada.
Uma nova reunião do Gecex está prevista para o dia 25 de junho, quando poderá ocorrer nova deliberação sobre a aplicação efetiva das medidas antidumping.
O tema também segue avançando no Congresso Nacional. Deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), dentre os quais a deputada Ana Paula, protocolaram uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) para investigar os impactos das importações sobre a cadeia leiteira e solicitaram auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o tema.
A pauta também é acompanhada pela Subcomissão Permanente do Leite (Subleite) da Câmara dos Deputados.